Saturday, July 04, 2009

75b banbury road, oxford.








Forks and Knives (La Fête)
Beirut



«

(...) Come, my friends.
'T is not too late to seek a newer world.
Push off, and sitting well in order smite
The sounding furrows; for my purpose holds
To sail beyond the sunset, and the baths
Of all the western stars, until I die.
It may be that the gulfs will wash us down;
It may be we shall touch the Happy Isles,
And see the great Achilles, whom we knew.
Tho' much is taken, much abides; and tho'
We are not now that strength which in old days
Moved earth and heaven, that which we are, we are, -
One equal temper of heroic hearts,
Made weak by time and fate, but strong in will
To strive, to seek, to find, and not to yield.

»

Ulysses
Alfred Tennyson





Saturday, May 30, 2009

o vestido branco como uma poça aos pés da emily dickinson








e este é um dos meus poemas favoritos de sempre
(talvez esteja nos 5 primeiros, até)





«


First, her tippet made of tulle,
easily lifted off her shoulders and laid
on the back of a wooden chair.

And her bonnet,
the bow undone with a light forward pull.

Then the long white dress, a more
complicated matter with mother-of-pearl
buttons down the back,
so tiny and numerous that it takes forever
before my hands can part the fabric,
like a swimmer's dividing water,
and slip inside.

You will want to know
that she was standing
by an open window in an upstairs bedroom,
motionless, a little wide-eyed,
looking out at the orchard below,
the white dress puddled at her feet
on the wide-board, hardwood floor.

The complexity of women's undergarments
in nineteenth-century America
is not to be waved off,
and I proceeded like a polar explorer
through clips, clasps, and moorings,
catches, straps, and whalebone stays,
sailing toward the iceberg of her nakedness.

Later, I wrote in a notebook
it was like riding a swan into the night,
but, of course, I cannot tell you everything -
the way she closed her eyes to the orchard,
how her hair tumbled free of its pins,
how there were sudden dashes
whenever we spoke.

What I can tell you is
it was terribly quiet in Amherst
that Sabbath afternoon,
nothing but a carriage passing the house,
a fly buzzing in a windowpane.

So I could plainly hear her inhale
when I undid the very top
hook-and-eye fastener of her corset

and I could hear her sigh when finally it was unloosed,
the way some readers sigh when they realize
that Hope has feathers,
that reason is a plank,
that life is a loaded gun
that looks right at you with a yellow eye.


»


Taking Off Emily Dickinson's Clothes
Billy Collins


e lido por uma voz extremamente boa aqui




Thursday, May 21, 2009





(Deer Bed, 2007
Katherine Wolkoff)






"I can see you now walking our dog alongside
Their tall French windows on a lawn; a brimming sun
Scorching the paint and the tree-lined entrance.
It is a disgusting thought. To see you there
Your hands ungloved, the leather leash. And
all the while, they expect your swift return for tea
Under the weight of centuries of gentleness,
And your polite report of outside life – the fish, the pond -
Lined translucently with words they have ran out of
long ago."




Thursday, May 14, 2009

'well i cannot tell you which way it would be if it was not this way too'




The Wind and The Dove
Bill Callahan



«

I wish that laying my days around you could be as natural a thing
as opening a window, spreading butter on toast or dying
that is all.

So this is what I meant when I spoke
Of truth rendered at once futile and again believable
I meant I was bound to return, to weave my hope into everything
My summoning song into everything

»


(Nan Goldin)


Saturday, May 09, 2009

destruição de pianos



«

Naked and invisible, the lady flier tried to control and talk sense into herself; her hands trembled with impatience. Taking careful aim, Margarita struck at the keys of the grand piano, and a first plaintive wail passed all through the apartment. Becker's drawing-room instrument, not guilty of anything, cried out frenziedly. Its keys caved in,

ivory veneer flew in all directions.


The instrument howled, wailed, rasped and jangled. With the noise of a pistol shot, the polished upper soundboard split under a hammer blow. Breathing hard, Margarita tore and mangled the strings with the hammer.

»

in
Master and Margarita
Mikhail Bulgakov




Monday, May 04, 2009









dói aqui, aqui, aqui e aqui.



Cartier Bresson
Martine Franck, 1986




Saturday, May 02, 2009




«

How beautiful, if sorrow had not made /
Sorrow more Beautiful than Beauty’s self.

»

John Keats


Sunday, April 26, 2009

das profundezas [do desespero] amamos





«

(...)
Não
faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso


»


De profundis amamus
Mário Cesariny




sobre Chopin





Nocturne no.1 in B Flat minor
Larghetto
Chopin




Chopin é de veludo, porque não é uma seda vaporosa, como as Quatro Estações de Vivaldi, nem um brocado excêntrico como Mozart, nem cortinas pretas como Bach. Os nocturnos do compositor polaco são de veludo porque são um paradoxo: têm uma leveza própria e imaterial, de tocar ao de leve nas coisas para as deixar despertar por si, mas sem desaparecer em fumo logo a seguir, permitindo-se observar o movimento-consequência (como círculos na água), deixando que a sua presença se infiltre por todos os cantos e não seja de forma alguma possível ignorá-la.

Confesso que não conheço mais nada para além dos nocturnos (o que pode sempre ser remediado), mas isso também porque me chegaram sempre, passeando-se nos meus ouvidos desde os 12 ou 13 anos. E ainda guardo um rancor a mim própria por ter desistido das aulas de piano antes de ter acabado de estudar
(começado?) o Nocturno nº. 20, em dó sustenido menor, hoje o meu favorito. Lento com gran espressione, ou, numa tradução caseira, lânguido e carregado de tensão.

E lembro-me agora (e quem não se lembra, de entre os pobres diabos do grupo de Humanidades no secundário?) da Cristina, a menina que tocava o Nocturno nº. 20 na “Aparição” de Vergílio Ferreira, a menina-veículo da transcendência da música - “alguma coisa, no entanto, a transcendia, abusava dela como de uma vítima, angustiava-me quase até às lágrimas.” -, que abria perante a assistência “o dom da revelação”, contido no espaço variável, mas curto, entre os seus dedinhos e as teclas do piano.

Chopin construiu-lhes, aos nocturnos, uma estrutura de sentimento, sempre inegavelmente meio sorumbática, e de tensão e deu-lhes uma espessura e intensidade (sempre graciosa) que é volúvel de significado. Chopin é audível em (quase?) qualquer situação, carregando-a instantaneamente de sentido, ganhando contornos tristes, concentrados ou mesmo alegres, electrificantes e/ou lascivos (sim, é possível). Uma espécie de simbiose momento/som. Os nocturnos emprestam dimensão e presença ao momento, que empresta significado aos nocturnos, como dois irmãos.

Posso dizer, então – com uma mistura de orgulho e paternalismo, como quando se fala das cidades por onde já se passou –, que já ouvi Chopin na rua, já ouvi Chopin com as costas, as pernas (ligeiramente afastadas) e a nuca assentes no chão de madeira e os braços confortavelmente distantes do tronco (chama-se a posição do cadáver, no yoga), já ouvi Chopin sentada numa cadeira, com os braços e a cabeça apoiada numa mesa, já ouvi Chopin enquanto estudava, já ouvi Chopin sentada num jardim e sentada na relva, já ouvi Chopin encostada a um ombro, sem roupa (talvez a melhor de todas as vezes). E é uma espécie de missão, fazer jus aos nocturnos, impregnando-os em muitos momentos, todos diferentes, provando as misturas de sabores (Chopin + relva, Chopin + pele, Chopin + concentração). E agora acabei de pensar que se calhar devia escrever em qualquer lado que quero os nocturnos no meu funeral (Chopin + morte).





Salvador Dalí
le piano sous la neige





Thursday, April 23, 2009




«

Cristina viera «fora de tempo». Ninguém a esperava já. O pai errara as «contas» da fisiologia, havia a lei moral - e ela nascera. Os amigos de Moura, risonhamnente, quando se referiam à filha, perguntavam-lhe pela «neta»... E ele sorria, inocente, porque a verdade da vida era mais forte do que ele, simples instrumento ou espectador...

- Cristina - disse Moura -, tu agora vais tocar um bocadinho para o senhor doutor.

A miúda fitou-me com os seus olhos azuis, sorriu imperceptivelmente e sentou-se ao piano. Ajeitou a saia à roda do banco e, de mãos imóveis no teclado, apesar do nosso silêncio, esperou ainda pela nossa atenção ou pela sua.

E então eu vi, eu
vi abrir-se à nossa frente o dom da revelação. Que eram, pois, todas as nossas conversas, a nossa alegria de taças e cigarros, diante daquela evidência? Tudo o que era verdadeiro e inextinguível, tudo quanto se realizava em grandeza e plenitude, tudo quanto era pureza e interrogação, perfeito e sem excesso, começava e acabava ali, entre as mãos indefesas de uma criança. Mas tão forte era o peso disso tudo, tão necessário que nada disso se perdesse, que as mãos de Cristina se estorciam na distância das teclas, as pernas na distância dos pedais e toda a sua face gentil, até agora impessoal e só de infância, se gravava de arrepio à passagem do mistério. Toca, Cristina. Eu ouço. Bach, Beethoven, Mozart, Chopin. Estou de lado, ao pé de ti, sigo-te no rosto a minha própria emoção. Apertas ligeiramente a boca, pões uma rugazinha na testa, estremeces brevemente a cabeleira loura com o teu laço vermelho. E de ver assim presente a uma inocência o mundo do prodígio e da grandeza, de ver que uma criança era bastante para erguer o mundo nas mãos e que alguma coisa, no entanto, a transcendia, abusava dela como de uma vítima, angustiava-me quase até às lágrimas. Toca uma vez ainda, Cristina. Agora, só para mim. Eu te escuto, aqui, entre os brados deste vento de Inverno. Chopin, Nocturno n.º 20. Ouço, ouço.

»

Aparição
Vergílio Ferreira